Gibiteca do Espaço Cultural Renato Russo ganhará nome de TT Catalão

04/01/2020

TT Catalão sempre uniu as pessoas, foi assim também na despedida, em que parentes, amigos, artistas e autoridades relembraram a trajetória desse grande nome do jornalismo e da cultura brasiliense

Familiares, amigos e admiradores se despediram, nesta sexta-feira (3/1), de TT Catalão. O jornalista e poeta foi velado no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul, e sepultado, à tarde, na ala dos pioneiros do Cemitério Campo da Esperança. Deixa um legado de resistência política e poética.

A sala multiuso do espaço cultural ficou pequena para as centenas de pessoas que foram prestar homenagem a Vanderlei dos Santos Catalão, o TT Catalão. A pedido da família, a maioria estava de branco. Artistas da cidade se revezavam em apresentações emocionantes durante o velório. O maestro Rênio Quintas, interpretou Brasileirinho, de Waldir Azevedo, outro personagem da cultura brasiliense. A filha do jornalista, Nanan Catalão, conduziu a oração de São Jorge, acompanhada pelos presentes.

A diversidade e o refino artístico de TT Catalão foram lembrados com interpretações do maestro Claudio Cohen, da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, e da Brasília Cello Academia.

Amigo de Catalão, Rênio Quintas lembrou do ativismo cultural de TT. “Ele fez a diferença na sua passagem aqui. Conseguiu concretizar, nos movimentos dele, o ideário de uma liberdade inteligente, que buscava um caminho para desenvolver o ser humano”.

Parceiro musical, o cantor Renato Matos foi ao microfone para recordar o surgimento da melodia que se juntou ao poema Solidão celular. “Ter tantos ao meu alcance e não ter com quem falar”, uma reflexão sobre a proximidade e a distância entre as pessoas que se faz atual até hoje. “É dos maiores poetas que conheci. Ele não precisava fazer poesia. Qualquer crônica e reportagem do TT dava prazer de ler porque tinha o ritmo poético. Falava da realidade, mas com poesia. Sem se preocupar com a rima, porque o ritmo estava na semântica do que ele escrevia”, lembrou o compositor. “Era admirável e vai fazer muita falta aqui no nosso cenário. Mas o que ele está deixando é um legado fantástico, que tem que ser bem aproveitado”, completou.

A herança de TT Catalão é concreta. O lugar escolhido para a despedida não foi obra do acaso. Hoje uma referência de fomento à cultura, o Espaço Cultural Renato Russo foi criado e gerido por Catalão, em 1993, quando trabalhou na Secretaria de Cultura.

Como homenagem, a biblioteca de gibis do espaço — uma das iniciativas do poeta — passará a se chamar Gibiteca-TT Catalão. Segundo o secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues, o objetivo é perpetuar a memória do escritor, no cenário cultural brasiliense para que ele continue “presente, na forma de fazer cultura, de luta, e na valoração das nossas tradições e identidade”.

O cineasta Vladimir Carvalho relembrou o primeiro encontro entre os dois, na redação do Correio, e a resistência propagada por Catalão, ao longo da carreira. “De lá pra cá, foram inúmeros os encontros. Ficamos mais pobres com a perda dele. E a gente tem que lamentar, mas, como ele dizia, resistir, reclamar e exigir também”, pontuou.

A cantora Célia Porto, acompanhada de Rênio Quintas, entoou o sucesso do cantor baiano Gerônimo, D’oxum, em homenagem a TT. Lembrou da generosidade dele para com os artistas. “Era a cultura viva da cidade. Um apaixonado por Brasília. Uma pessoa amiga de todas que fazem arte, na cidade”.

O ex-governador do DF Rodrigo Rollemberg destacou a importância do jornalista para o fomento à cultura da capital federal. “Um dos caras que mais estimulou a diversidade da cultura na capital. Aqui, estão pelo menos, três gerações de pessoas que conviveram com ele. Dos mais velhos aos jovens, quem está presente aqui teve, no TT, um grande estímulo”.

Referência

“Fico pensando na concentração de pessoas que veio prestar homenagem a uma pessoa que virou símbolo. Como é interessante celebrarmos alguém que é uma ideia. É por isso que tem tanta gente aqui”, comentou o amigo e poeta Nicolas Behr.

Filho de Catalão, João estava orgulhoso com o reconhecimento da trajetória do pai. “A vinda de tantas pessoas é a maior felicidade que ele poderia ter na vida. Ele sempre foi alguém que juntava as pessoas. Ver todo esse pessoal vindo falar dele, cada um contando uma história, é muito bonito. É o maior legado que você pode ter, numa vida sincera e íntegra como a dele”, disse.Gabriel Lessa, também filho de Catalão, lembra com carinho e admiração os ensinamentos deixados pelo pai. “Defendia a ideia de que a cultura é indispensável, defendia o amor, e tinha esse sentimento. Tanto que se pode ver isso aqui, hoje. Muitas pessoas, de diferentes lugares e culturas, que compareceram para a sua despedida”, refletiu.

A esposa, Vera Catalão, agradeceu o carinho dos amigos e admiradores do marido. “Nesse momento, o que nos conforta é ver que ele amou a família e também a dedicação que ele teve. Esse amor à cidade volta para ele. No coração das pessoas, ele vive”, disse.

A filha, Nanan, fez questão de recordar a generosidade de TT Catalão. “Foi o maior ensinamento do meu pai. Uma semente em cada curva e em cada gesto. “Ele era capaz de se subtrair para multiplicar. Foi um guerreiro até o fim da vida”, lembrou.

Diversidade

Entre as palavras citadas pela por Nanan, estiveram histórias e memórias da família. A empatia com as minorias e com as diversas culturas e etnias foi uma das recordações citadas. A herdeira relembrou a iniciativa do pai de abrir as portas de casa para receber indígenas e quilombolas, que chegaram a viver com a família por algum tempo.

Catalão também recebeu as homenagens de representantes culturais aos quais ele buscou dar voz ao longo da vida. Representando terreiros tombados e mapeados, na Bahia, no Maranhão e em Brasília, Adna Santos, conhecida como Mãe Baiana, destacou a atuação de Catalão no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), onde ele trabalhou pela valorização de diferentes vertentes religiosas. “Ele era agnóstico, mas tinha esse carinho com a comunidade indígena, quilombola e africana”, contou Mãe Baiana.

Em mais uma homenagem, os presentes no tributo deram as mãos em nome do legado imaterial construído por TT Catalão. Uma roda se formou pelo espaço para receber as bençãos e entoar os cantos conduzidos pelo líder indígena Toponoyê Junior Xukuru. “Ele nos ensinou a fazer o bem. Tudo o que acredita, sente a força, mas não pode ver. Não o perdemos, mas agora o ganhamos como encantado”, disse o líder da comunidade Xukuru. Em clima intimista, amigos e familiares prestaram as últimas homenagens a TT no Campo da Esperança. O poeta foi enterrado na ala dos pioneiros do cemitério.

Durante o funeral, algumas pessoas falaram sobre personalidade e momentos marcantes com Catalão. “Uma frase o define: ‘a vida não é medida pelo número de vezes que respiramos, mas pelo número de vezes que nos tirou o fôlego’. E o TT sabia nos tirar o fôlego com suas frases, textos e ações políticas”, destacou Silvestre Gorgulho, ex-secretário de Cultura.

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